segunda-feira, 12 de setembro de 2011

com um salto furei a tela

acordei e senti aquela vertigem mais uma vez. desde abril eu criei uma nova pessoa. desde uma terça-feira em que quase morri e decidi, optei, circulei nos classsificados dos jornais, pichei nos muros, tatuei na pele: não matarás. desde aquele dia terrível, desde aquela noite absurda em que vômito corria sobre as cabeças, telas foram para o lixo, as frases escorreram da boca suja da rua... desde aquele instante eu infartei e voltei. eu decidi que os seus mortos não me perseguiriam mais. eu afastei as lembranças que copiei da sua memória. eu te exclui do meu umbigo. eu cuspi teu semem, eu me fodi.
e assim eu me fiz fenix novamente. viajei, criei, me libertei. tive a sensação de que assim você também ficou livre. com um salto furei a tela. rasguei um espaço prá viver. prá mim. prá ontem. prá porra nenhuma. prá cantar bem alto no carro sem tem que pagar pedágio prá miséria que você me deu.
e assim eu fui feliz para sempre. descobri mudanças importantes no meu gosto, como o café amargo com bolinho, a tinta magenta, as infinitas aguadas bebedas no fim da manhã, e os saltos. com um salto furei a tela. criei espaço. stepped you out.
agora mais uma vez chegam mensagens de você. de que nesta terça-feira você morreu também. procurou deuses, sentiu dor.
em alguns momentos eu tenho pena, em outros ódio, mas não sou indiferente, seguramente não sou.
I´ve stepped you out 4 ever. prá sempre.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

francesca woodman

por um momento eu retornei a mim mesma. fria e dura, no estado natural das coisas. aquela parte macia, mole, adocicada como um remédio que enjoa, ela eu decepei. existiu é verdade, mas acabou. eu ainda não compreendo como a deixei a mostra. se eu sabia que não haveria compreensão. arrogância minha dizer isso, é verdade, mas, no final foi o que aconteceu. eu queria poder transmutar essas cores, esses tons de cinza em palavras. esses acordes em sussurros. meu corpo quer viver, a despeito dessa morte toda, meu corpo quer viver, quer passar por sobre minhas asas, quer manter-se, quiçá propagar-se. eu não estou mais na beira do abismo, não agora. mas parece que qualquer passo alheio pode me precipitar. como chuva. eu chovo. aqueço e foi-se mais uma vez, mais um dia. logo eu completarei 31 anos. quantos desses foram meus, eu não sei.

terça-feira, 5 de abril de 2011

la catrina chrissy goral

Mulher-esqueleto

Não entre no meu mar. Vá embora. Meus ossos não te servem. Não tenho carnes, nem cabelos, nem seios, nem seria sua mamãe. Vá embora. Eu posso viver no fundo do mar, eu não quero me arrastar no seu barco, na sua vara, na sua fome. Não despeje sua chuva nas minhas costelas secas. Não tente fecundar as marés, vá, vá logo. Não atire cartas ao oceano esperando minha resposta de dentes, todos os dentes. Não. Eu estou sozinha, e aqui vou enterrar-me na areia das profundezas, encontrar rasas raízes entre as algas e as anêmonas. Você já se foi, então vá. Esse ódio, essa dor, esse triste fim - deixe-o ser. Eu não vou arrancar seu coração para fazer dele minhas carnes. Eu não quero mais você, pesca.dor.
Então, não se alimente mais de mim. Eu sou só ossos, vá para outra praia. Refastele-se de sadismo em outra baía.
Meu canto, de outrora sereia, não se fez ouvir. Você não entendeu meu apelo suplicante. Palavras ofensivas por te querer. Longe.
Porque eu não posso reduzir-me a ainda menos que mulher-esqueleto. Mesmo assim, se esses poucos e podres ossos fazem estilhaços na sua embarcação... reme! Só depende da sua força para estar longe, portanto, marinheiro, reme!

segunda-feira, 28 de março de 2011

Como eu faço pra sair daqui de dentro?

Método de tentativa e erro

Eu começo os dias achando que vou sobreviver, que é possível, que as coisas vão se acertar. Quando são 16h25 eu já não tenho mais a mesma solidez. Eu me desfaço. Isso tudo porque eu inventei, foi me dito. Deve ter sido mesmo. O que me deixa sem consolo é que inventei para pessoa alguma, para nada, para Alguém-ninguém. Eu deveria ter escutado, lutado, me negado. O contrário, eu quis. Eu fui até o fim, bisbilhotei e quando vi fosso me atirei, sem dó da minha matéria, sem piedade da minha auto-estima.
Eu preciso me lembrar constantemente da tristeza que me foi causada, pra não ser Maria-ninguém e escrever mensagens de novo, e juntar cacos de garrafas pra atirar precipício abaixo, como se eles fossem a própria carta. A tortura que me fragiliza, quando releio as cartas, quando revejo as imagens, quando escuto os sons, essa mesma tortura de madaleine, é ela que me faz subir morro acima todos os dias.
Você nunca me quis, nunca me amou, nunca pronunciou meu nome. E quando ouviu meus gritos pela primeira vez, disse chega. Pela primeira vez ouviu meus gritos, e pela primeira vez disse chega. Porque os ouviu, porque se eu não gritasse nada te despertaria.
Me odiar e se cansar de mim foi simples. Me ofender, me atirar às cobras, isso foi feito desde o princípio. E ainda assim eu quis. Eu quis espaço, eu quis corpo, eu quis as palavras duras, os açoites, eu quis tudo. Queria ver diferente hoje e já. Queria não ter querido.
Mas como todo mundo sabe, eu quis demais.
Fecharam-se as comportas*, as portas, as janelas. Aqui não está e não estará. Tenho meu espaço. Agora pausa, vou mais uma vez subir à tona.